Quando você lê "daquele que É" em Apocalipse 1:4, o instinto é pensar: "Ah, Deus está no tempo presente." E não está errado. Mas é muito menos do que João quer dizer.
Essa expressão carrega o peso de uma das revelações mais densas de toda a Bíblia — a cena do Êxodo 3, no deserto, quando Moisés pergunta o nome de Deus e recebe uma resposta que não é bem um nome. É um verbo.
O "É" não fala de tempo — fala de identidade
Todos os outros nomes de Deus na Bíblia descrevem o que ele faz ou como ele se relaciona. Elohim — o poderoso criador. El Shaddai — Deus Todo-Poderoso. Yahweh Jiré — o Deus que provê. Cada nome aponta para uma ação, uma característica, uma relação.
Mas quando Moisés pergunta diretamente — "qual é o teu nome, para que eu diga ao povo quem me enviou?" — Deus não diz o que faz. Ele diz o que é.
"O 'É' não é uma descrição do que Deus faz.
É uma declaração do que Deus é."
A cena do deserto — Êxodo 3:14
Moisés está diante de uma sarça que arde e não se consome. Uma voz fala. E em algum momento ele pergunta algo que pouquíssimas pessoas na história tiveram coragem de perguntar diretamente a Deus:
"Eis que quando eu for aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me perguntarem: qual é o seu nome? — que lhes direi?"
E Deus responde com algo que Moisés certamente não esperava. Não um nome próprio. Não um título. Uma frase que, em hebraico, soa assim: Ehyeh asher ehyeh — que traduzimos como "EU SOU O QUE SOU." Ou simplesmente: EU SOU.
"Eu sou o Deus do Egito"
"Eu sou o Deus do passado"
"Eu sou o Deus do futuro"
Ele disse apenas: EU SOU
Sem lugar. Sem tempo. Sem comparação. Existência absoluta.Isso é estranho de propósito. Deus não se define por nenhum contexto externo. Não por uma civilização, não por uma era, não por nenhuma outra divindade com a qual pudesse ser comparado. Ele existe por si mesmo — e isso não precisa ser explicado por mais nada.
Agora voltamos a Apocalipse 1:4
Quando João escreve "daquele que É", os leitores judeus do século I reconheceram imediatamente. Não era uma expressão nova. Era um eco direto do Êxodo. João estava dizendo:
O mesmo Deus do deserto está falando às igrejas perseguidas do século I. E a mensagem implícita é poderosa: o Deus que se revelou como existência pura, que não depende de Faraó nem de circunstância nenhuma — esse mesmo Deus é quem está por trás das palavras desta carta.
"Quando Apocalipse diz 'aquele que É', está falando do mesmo Deus que disse a Moisés 'EU SOU'. É Deus dizendo: eu existo por mim mesmo. Eu não dependo do tempo, nem da situação. Eu simplesmente sou."
— Entre RevelaçõesAí entram o "ERA" e o "HÁ DE VIR" — nessa ordem
Muitos leitores leem as três expressões como equivalentes: presente, passado, futuro — só uma questão de tempo. Mas há uma hierarquia aqui que costuma passar despercebida.
O É vem primeiro — e não é acidente. Ele é o fundamento. Era como se João dissesse: primeiro entenda quem Deus é (existência absoluta). Só então faz sentido dizer que esse Deus sempre existiu (ERA) e sempre existirá (HÁ DE VIR).
O detalhe que poucos notam: João não diz "o que será" — ele diz "o que há de vir". Em grego: ho erchomenos — o que vem, o que está chegando. É uma ação, não só um estado. Deus não só existirá no futuro — ele virá agir. Para igrejas perseguidas, isso era promessa concreta de intervenção.
Para o seu coração — o que isso muda hoje
Quando sua situação muda, Deus não muda. Emprego, relacionamento, saúde, fase da vida — tudo isso é circunstância. E Deus não se define por nenhuma circunstância. O "EU SOU" existe independente do que está acontecendo na sua vida agora.
O Deus que agiu no passado da Bíblia é o mesmo que age no seu presente. O "ERA" não é uma saudade de um Deus que ficou lá no Êxodo. É o mesmo "É" manifestado no passado. Ele não mudou de natureza entre Moisés e você.
O futuro não é incerto para quem conhece o "HÁ DE VIR". João não diz que o futuro é tranquilo. Diz que o Deus que "há de vir" já sabe o que está lá. E ele não chega de surpresa — ele vem. Isso é diferente de simplesmente "estar lá".
"O 'É' não descreve o que Deus faz. Descreve quem Deus é. E essa é a diferença entre ele e tudo o mais que existe."
"Deus não se define por tempo, circunstância ou comparação. Ele simplesmente É."
"O mesmo Deus que disse 'EU SOU' a Moisés no deserto é quem assina a carta do Apocalipse às igrejas perseguidas."
"Quando a situação muda e Deus parece distante — lembra: ele não se define pela situação. Ele simplesmente É."